O livro de 1872 — publicado 25 anos antes de Drácula, de Bram Stoker — conta a história de Carmilla, a primeira vampira lésbica da literatura, e Laura, uma jovem da Era Vitoriana. Esse foi um período marcado por moralidade rígida, patriarcal e conservadora. As mulheres não tinham direitos políticos e seu comportamento era vigiado de perto pelo estado, pela igreja e pela sociedade.

A inspiração para Carmilla vem de outras personagens lésbicas

Segundo o trabalho acadêmico Carmilla: a mulher lésbica entre a transgressão e o castigo na era vitoriana, de Lyssia Alves de Oliveira Ribeiro Chaves pela Ufal [link], Carmilla foi inspirada em algumas personagens que apresentavam uma conduta homoafetiva.

Elizabeth Báthory, a condessa húngara que assassinava jovens mulheres em rituais de beleza. Assim como Carmilla, a juventude e a sedução eram características marcantes de Elizabeth Báthory.

elizabeth bathory

Christabel, personagem que dá nome ao poema inacabado do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (escrito em 1797 e publicado em 1816). A jovem Christabel encontra à noite, sozinha na floresta, uma mulher misteriosa e perturbadoramente bela chamada Geraldine — que conta ter sido sequestrada e implora por ajuda. Movida pela compaixão, Christabel a leva para o castelo do pai e divide com ela o próprio quarto. Numa cena carregada de erotismo gótico e ambiguidade sobrenatural, Geraldine despe-se lentamente à luz da lamparina enquanto Christabel a observa, e então a envolve nos braços. O poema nunca explicita o que acontece nessa noite — e é exatamente essa névoa deliberada que o torna tão perturbador. Não por acaso, estudiosos apontam Christabel como uma das influências diretas de Le Fanu ao escrever Carmilla.

Como a obra passou despercebida com tantas cenas homoafetivas?

"Nunca amei ninguém, e nunca amarei, ela sussurrou, a menos que seja você." — Carmilla

Por causa do conceito de "amizades apaixonadas" (ou amizade romântica), uma convenção social que permitia às mulheres expressar afetos intensos e desejos de forma que não era permitida aos homens. Isso porque as mulheres eram consideradas "mais sensíveis e frágeis" e tinham maior liberdade na demonstração de sentimentos — o que a sociedade da época não interpretava, a princípio, como um desvio das normas heteronormativas.

Com esse comportamento aceito como normal, era muito difícil distinguir se a relação entre mulheres tinha cunho sexual ou era apenas uma "amizade apaixonada", já que a troca de carícias e cartas românticas era socialmente aceitável.

mulher gotica vestida com camiseta carmilla

Carmilla é considerada a primeira obra lésbica da literatura?

Sim — e essa leitura, embora intrínseca à narrativa desde o século XIX, só foi consolidada de forma explícita na contemporaneidade.

Quando o mundo finalmente leu Carmilla como ela é

O entendimento de Carmilla explicitamente como uma obra lésbica passou por diferentes fases de percepção. Após a Primeira Guerra Mundial, a identidade homossexual feminina começou a sair da obscuridade e a ser vista como um desejo real de uma mulher por outra. Foi nesse período que a percepção sobre a autonomia e a sexualidade feminina começou a mudar, permitindo releituras mais diretas de obras que antes eram tratadas apenas como "místicas" ou "fantásticas".

 

A análise de Carmilla como precursora da temática da sexualidade feminina e do lesbianismo se consolidou a partir de mais estudos sobre a sexualidade feminina e da produção de literatura de horror contemporânea. Embora o tema fosse intrínseco à narrativa desde o século XIX, a obra começou a ser vista e analisada abertamente como lésbica à medida que a identidade homossexual feminina ganhou voz e visibilidade social — especialmente a partir do século XX, consolidando-se no XXI.

Carmilla esperou mais de um século para ser lida como ela realmente é. A gente não vai esperar mais. Nossa camiseta Carmilla é pra quem sempre soube reconhecer uma história de amor — mesmo quando o mundo insistia em chamar de outra coisa. [Ver camiseta →]

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